
Videogames são arte? Isso importa?
Sou gamer e gosto de pensar sobre os games. Não só na resolução dos seus gráficos, no impacto da trilha sonora ou na jogabilidade precisa ou falha. Acho que jogar é mais do que apertar botões no tempo certo. Procuro tentar entender como cada elemento se junta para criar significados que pixels coloridos, notas musicais e botões gastos, sozinhos, não possuem.
Hmmm.
Games têm um sentido que vai além do óbvio. Games não são apenas um produto mercadológico. Games são mais que entretenimento…
Agora chega a frase mágica: “Games são arte!”" Está aberto o debate, gritos fervorosos ecoam na comunidade gamer – uma discussão emocionante a princípio, mas de uma repetição nauseante mais para o fim inalcançável.
O gatilho da discussão data lá de 2005, quando Roger Ebert, famoso crítico de cinema e roteirista , martelou categoricamente que games não são arte. E que nem podem ser. Nas palavras dele, “videogames, por sua natureza, exigem escolhas do jogador, o que é a estratégia oposta dos filmes e literatura séria, que demandam controle autoral.”
Polemizador nato, Ebert cutucou uma ferida que trouxe à tona uma repercusão impressionante. Depois disso, mais e mais e muito mais debate.
Mas o que quer dizer game é arte?
Aí que tá: depende. Arte é um tema tão complexo e abrangente que essa frase, por si só, não quer dizer nada. O perigo é que ela guarda um paradoxo não tão óbvio: games são um fenômeno cultural e industrial criado no fim do século XX, extensão tecnológica do jogo – conceito esse presente desde o Big Bang. Já a arte, para o senso comum, quer dizer Da Vinci, Mozart, Shakespeare e museus. Esse conceito já foi descontruído por Duchamp há quase um século, quando ele, de pinico na mão, indagou: só porque está no espaço do museu é arte?
Para colocar game e arte na mesma frase, portanto, é importante pelo menos situá-los no mesmo século.

Para polemizar, o Video Games Live é arte?
Sim e não.
É música maravilhosa e uma super produção, mas não é arte de games. É um show de música, é música. Música, música, música.
A arte de games está no game, no ato de jogar, não no palco ou na mp3: situa-se na relação entre seus elementos e nos significados criados aí. Não são os gráficos, a música ou a jogabilidade, é a soma desses fatores.
Mas espera! e o Nobuo Uematsu, o roteiro de Mass Effect, a atmosfera de ICO e Shadow of Colossus, a imersão de Myst, a base filosófica de Bioshock, a jogabilidade de Braid e e…. ?
Esses casos (e muitos outros) envolvem criações de tão boa qualidade que superam a plataforma de onde vieram, no caso o videogame. Rendem discussões, brigas, fins de namoro, isolamento social, mods, remixes funk e subprodutos: CDs, livros, shows, artbooks. E, claro, não esqueçamos o fator mercado: essa “arte” dá uma boa grana.
A ótima trilha de Ace Combat 5 dá um bom exemplo. É uma delícia ouvi-la de manhã, antes de uma prova importante ou um primeiro encontro. Motiva mais do que o tema do Rocky! Só que isso tudo é extensão da vida útil dela: ela serve para animar você, jogador, e deixar a experiência de pilotar seu avião mais intensa.
Então comofas?
Ice-Pick Lodge é uma desenvolvedora russa, autora de Pathologic (2005) e The Void (2009). O primeiro ganhou todos os prêmios russos possíveis e mais alguns, sendo aclamado por sua profundidade temática, mas chamado de “Oblivion com câncer” por ser pesadíssimo. É interessante, só que é MUITO difícil de jogar, não tentem, avisei! Pathologic chegou em mares nunca dantes navegados, só que num barco bem fuleira. Aqueles corajosos e desocupados que o desbravaram reconheceram seus potenciais.
Os desenvolvedore da Ice-Pick, em entrevista, disseram o que considero essencial: “A raiz de tudo é a liberdade de escolha do jogador”. Extremamente lúcidos, os russos consideram que o game como meio tem diversas “ferramentas” próprias. Eu colocaria algumas: a necessidade de o jogador ser ativo, a possibilidade do multiplayer, diferentes interfaces de controle, o confrontamento com a inexistência do definitivo (vide patches e DLC).
Chega!
Um tempo atrás eu era defensor ferrenho da ideia de que games poderiam ser a nona arte, talvez até a arte definitiva. Afinal, eles inauguraram uma sinergia entre imagem, som e interação forte e, principalmente, sem precedentes. Isso potencializa trabalhar narrativas de maneiras até então inimagináveis.
Mas falar de games e arte cansa. Talvez seja interessante pensar na relação cinema-games e como a narrativa cinematográfica contamina os games; os advergames e seu impacto no mercado; como os games afetam a economia; como a economia afeta os games; será que os games têm uma mitologia própria? Esses tópicos são tão mais legais, estimulantes e produtivos do que game ser arte ou não!
Por que os games precisam ser arte? Talvez para justificar as bolhas no dedão, para reforçar a ideia de que game são sérios, para agregar valor ao$ produto$ ou para contradizer o Ebert.
Videogames são arte? A pergunta certa é: isso importa?
[ Carlos Oliveira está no último semestre de Jornalismo pela PUC-SP e curte jogos com mais de 100 horas de duração. Escreve para a Nintendo World, Folha de S. Paulo e no blog JoguEpense. ]
cateogories: Arte, Colaboração, Game Design

Leonardo Fischer
September 19, 2010 at 16:07
Arte é uma coisa muito relativa. Não é uma coisa que possa ser definida, ainda mais por um crítico de cinema, que não faz arte, só consome. Uma mera foto pintada no século 16 hoje em dia é a conhecida Monalisa. Pra mim, arte é algo que me faça pensar, coloque dúvidas na minha cabeça, talvez por escolhas do artista, ou por algo que percebi sem ninguém me avisar.
Pra mim, o jogo não precisa ser arte. Por exemplo, Goldeneye do N64 é um jogo incrivel, que tenho vontade de jogar até hoje. Mas não me faz pensar, não toca no meu sentimento ou na forma como vejo as coisas. Por isso, não vejo ele como arte.
Por outro lado, Braid tá se tornando o exemplo clássico de jogo-arte. Enquanto jogava ele, ficava pensando em coisas totalmente fora do jogo, e relacionando com o jogo em sí. E, da mesma forma, temos filmes, livros, músicas que são muito divertidos mas não são tão artísticos como outros.
Bom, essa é a minha opinião sobre games e arte.
=)
Alien
September 19, 2010 at 19:58
Uma coisa: a nona arte já existe e é a “banda desenhada”. Se os games forem considerados arte mesmo, eles seriam a 10ª (tem gente que considera a arte virtual a 10ª, mas eu acho uma grande besteira separar arte digital de arte tradicional só pq envolve um computador :P) .
Sabe, para mim os games ainda estão no começo, algumas das hoje ditas artes não foram consideradas artes a princípio também. O cinema começou como um projeto científico, e antes dos movimentos artísticos no período da Primeira Guerra (expressionismo, avant-garde etc.), era basicamente um teatro filmado, por exemplo. O que eu acho que falta no mundo dos jogos é uma maior separação das outras artes. A narração dos jogos ainda é muito cinematográfica ou muito literária. Claro que uma arte sempre leva um pouco das outras, mas os jogos hoje basicamente são só compostos de pedaços das outras áreas artísticas(há excessões, claro).
De resto acho que é apenas falta de capacidade de compreender a mudança que ocorreu de uma geração para a outra, típica de todas as gerações.
Flavio Meibach
September 19, 2010 at 20:08
Eu acho difícil começar uma discussão sobre qualquer coisa ser arte sem que as pessoas envolvidas tenham sua própria definição de arte. Digo que cada uma tem que ter a sua pois não acredito que ainda vamos chegar numa definição universal de arte, que seja abrangente o suficiente para incluir todas as variantes de mídia e formas de expressão. Mas o fato é que a maioria das pessoas julgam o que consideram ou não arte por meio da intuição o que torna essas escolhas inconsistentes e aleatórias.
A minha definição do que é uma obra de arte é: Toda obra construída de forma a permitir sua experimentação e interpretação em várias camadas, acolhendo a bagagem cultural e experiência de vida de seu observador.
Não é uma definição muito concisa pois ainda chama outras definições como: o que é entender em camadas? Mas sinto que quando a aplico ela torna a minha triagem arte/não arte bastante consistente. E está longe de ser perfeita pois apesar de ter um lado acolhedor, tem um lado que pode se mostrar gratuitamente preconceituoso.
Acolhedora por incluir o observador diretamente na obra de arte. Por aceitar obras menos explícitas contanto que o observador encontre alguma ressonância com a vibração de tal obra. E por outros motivos os quais estou meio cansado pra procurar agora, hehe.
Preconceituosa por sua tendência a excluir as artes “comerciais” e as explícitas. Preconceituosa por diminuir a importância da arte como ferramenta de comunicação ou de entretenimento puro, pois essas formas de expressão são mais ditadoras nas suas mensagens e convidam menos o observador na construção do significado. E reafirmo que isso é preconceito, pois vez ou outra o pós-conceito me mostra valor artístico em algumas obras dessas categorias.
Também tem um efeito colateral bastante desejável nessa definição. Já que o Ebert não joga, ele não conta como observador. Sua opinião tem validade nula pra nossa mídia.
Com tudo isso claro na minha cabeça como posso deixar de considerar que jogos podem ser arte? Não serão todos, mas isso se aplica a qualquer mídia. Quem aqui já não tirou um significado extremamente pessoal de um momento de um jogo, um momento que só funcionaria nesta mídia? Quem aqui não experimentou uma sensação com um jogo completamente diferente da experimentada por um amigo? Quem já teve experiências desse tipo certamente passou a ter um carinho especial pelo jogo que as causou. Esse jogo deixou uma marca nessa pessoa.
Jogos são interativos e, exatamente por isso, convidam o observador/jogador pra experiência mais do que qualquer outra mídia. É inevitável que alguns deles já sejam e que, cada vez mais, outros venham a se tornar arte.
Danilo Ganzella
September 19, 2010 at 23:38
Haha, para mim arte é imitar a realidade. E games é a forma mais próxima de imitar a realidade, deixando-a mais interessante. Em uma escala de dinamicidade, podemos começar com um texto – que nos faz imaginar tudo. Depois uma imagem – que proporciona um feedback visual e nos faz imaginar uma cena e uma situação. Depois um vídeo que nos faz ver uma linha do tempo contínua mas impossível de ser trocada. Por um fim o jogo, em que pode-se haver diversos possíveis linhas do tempo dependendo de sua ação acada instante (assim como a vida). Ah, outra coisa. Quando um jogo é muito bom eu nem percebo a parte gráfica de uma forma consciente. Normalmente eu fico fixo no gameplay e os gráficos apenas acompanham a idéia e a emoção que o gameplay proporciona.
Ivan Freire
September 20, 2010 at 13:24
Ser interativo não é argumento para algo deixar de ser arte.
Já ouviram falar do Parangolé de Hélio Oiticica?
Acho que isso ajuda a completar o pensamento:
http://www.monoparte.org/download/dissertacaoFabrizio.pdf
abrax
Bruno Assis
September 21, 2010 at 15:01
Carlos, ótimo texto!
Creio que discutindo se X ou Y são arte ou não, não chegaremos a lugar nenhum, dada a subjetividade INERENTE à arte. É como discutir se um jogo é “bom” ou não. Muito subjetivo.
Arthur Protasio
September 21, 2010 at 15:05
Antes de mais nada, parabéns, em primeiro lugar, ao blog do Double Jump por ser um belo trabalho de desenvolvedores nacionais e em segundo para o autor, Carlos Oliveira, por se colocar à disposição para discutir esse tema!
Respondendo ao autor: Videogames são arte e isso importa sim! Mas não devemos achar que arte necessariamente implica em um juízo de valor positivo ou negativo. O foco principal é a transmissão de uma mensagem e de ideias.
Isso tem ainda mais relevância porque cada vez fica evidente a forte presença que a mídia dos jogos eletrônicos assume na sociedade. Mas não só do ponto de vista comercial e/ou financeiro, mas narrativo e emocional. Acho que os jogos são arte sim porque eles se valem da sua mecânica de interação para reproduzirem situações das mais diversas que fazem ponta com entretenimento, educação, arte, política, cultura, narrativa e, em essência, formas de expressão.
Coordeno o CTS Game Studies [http://direitorio.fgv.br/cts/games], um projeto de pesquisa e desenvolvimento de jogos do CTS/FGV no RJ, e o argumento de que os jogos devem ser vistos como obras artísticas e culturais é fundamental. Fundamental para evitar proibições judiciais desmedidas, como as do Counter-Strike e EverQuest (dentre outras), e garantir que todos tenham acesso ao conteúdo dos jogos, mesmo que seja classificado de maneira indicativa para cada faixa etária. Afinal, a idade média do jogador comprova que os jogos eletrônicos são uma mídia com potencial muito além do mero entretenimento para o público infantil.
Não é necessário pensar apenas em exemplos óbvios de manifestações da cultura nacional por meio dos jogos, mas que certamente são bem vindos, como Tríade, Cabanagem, Capoeira Legends, Buzios: Ecos da Liberdade. Por que não Passage e Pathways? Ambos usam a simplicidade para tecer comentários muito interessantes sobre a vida (e seus diferentes rumos). Ou GTA IV? Excelente sátira social. Fallout? Shadow of Colossus? Ou as criações de mobília por usuários em The Sims? Se há algum canal para que o jogador se expresse pelo jogo, muito provavelmente ele vai realizar um comportamento típico da sua sociedade e isso por si só já constitui cultura. Não concorda? Mas o Smithsonian sim. Em 2012 o museu americano vai abrir uma exposição para a arte e cultura dos “games”.
Se outras mídias como o cinema, a literatura, a pintura, os quadrinhos já fazem isso e são consideradas arte, o que impede o “games” de cumprirem esse papel?
Jogos (eletrônicos) são cultura e arte! Jogos são formas de expressão e isso importa porque garante nossa proteção perante a Constituição!
Bruno Assis
September 21, 2010 at 15:34
@Arthur Protasio:
Mas aí é que está. Se, na sua visão, jogos são arte e na visão de outrem eles não são, isso *não* influencia na qualidade e nas experiências passadas pelo jogo, tornando-se apenas uma questão de rótulo.
E acho que ISSO que o autor quis passar quando levantou a questão se “isso importa”.
–
Outra questão a ser levantada é: suponhamos que exista uma maneira objetiva e oficial de tornar uma forma de mídia e/ou entretenimento, ARTE. Somente pelo fato de tal forma ser, agora, considerada arte, ela MERECE mais atenção e desenvolvimento? Significa que A PARTIR DE AGORA ela faz MAIS parte da cultura e intervém mais nesta?
Rótulo é rótulo. E um rótulo, importa? Creio que não.
Arthur Protasio
September 22, 2010 at 08:29
@Bruno Assis:
Acho que soei um tanto agressivo e incisivo na mensagem anterior. Não foi essa a intenção e por isso peço desculpas a todos.
De fato, a questão do "rótulo de arte" não influencia na qualidade da experiência e o próprio conceito de arte independe de juízos de valor como "bom", "ruim", "fascinante" ou "ultrajante". Nesse sentido, concordo com você e com o autor que a discussão acerca do rótulo muitas vezes pode desviar do quesito principal que é a mensagem veiculada através da mídia.
A única coisa que me preocupa nesse sentido, é que se os jogos forem consagrados e verificados por todos como arte ou obras de criação artística com ligações culturais, tecnológicas e de comunicação, isso garantira proteção da Constituição Brasileira a essa mídia. O Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal é bem claro e uma das formas de evitarmos decisões judiciais loucas e garantir a liberdade de expressão em nome dos jogos é enquadrarmos as obras nesse "rótulo".
Nós sabemos que a mídia independe desses conceitos e jogos sempre serão significarão milhões de coisas para seus jogadores, praticamente todas elas ótimas. Contudo, quem não joga pode facilmente criar uma visão negativa e sem esse "rótulo" social, quando a questão é proteção constitucional, nós corremos o risco de sair perdendo perante o poder judiciário, legislativo e a própria mídia, como os jornais.
Espero ter sido mais esclarecedor dessa vez. Qualquer dúvida, é só falar.
Bruno Assis
September 23, 2010 at 04:46
@Arthur: Não creio que você tenha sido agressivo. Incisivo sim, mas isso não é um problema ;)
Entendi melhor seu ponto. De fato, a proteção constitucional é importantíssima — mesmo sendo falha e, principalmente no caso do Brasil, muitas vezes sendo arbitrariamente desrespeitada.