
Operações obscuras por trás de Call of Duty: Black Ops
Call of Duty: Black Ops foi lançado semana passada e tem tudo para bater o recorde de maior lançamento da história da indústria de entretenimento (vendeu 5.6 milhões de cópias no primeiro dia, contra 4.7 do atual recordista, Modern Warfare 2). A série é sem dúvida uma das mais bem sucedidas da história dos games, tendo lançado 7 jogos nos últimos 8 anos, sempre com bom crescimento em vendas.
Apesar disso, nem tudo são flores na terra dos blockbusters de tiro: a Infinity Ward, estúdio criador da série que foi adquirido pela Activision em 2003, esteve cercada de polêmicas nos últimos anos. Após o sucesso estrondoso do CoD 4: Modern Warfare, os diretores do estúdio, Jason West e Vince Zampella, entraram em conflito com o publisher por desejarem desenvolver uma IP nova, enquanto que a Activision queria que fosse produzida uma sequência imediata. Dois anos e algumas promessas não-cumpridas depois, esses mesmos diretores foram dispensados da empresa por suposta insubordinação.
O caso virou litígio e ganhou as capas de todas as publicações da indústria de games em Março deste ano, gerando dúvidas sobre o futuro da série. Afinal, apesar de a IP pertencer à Activision, a Infinity Ward ainda era vista como essencial para o sucesso dos games da franquia. CoD: World at War, desenvolvido pela Treyarch, outro estúdio interno da Activision que também desenvolveu Black Ops, não conseguiu dar continuidade ao mesmo sucesso de crítica e público do CoD 4. Analistas e supostos entendidos lançaram sombras e mais sombras de dúvidas sobre o futuro da franquia.
Apesar de tudo isso, Black Ops está vendendo como água no deserto. Qual conclusão podemos tirar dessa história?
Resposta: o consumidor está pouco se fu… er, lixando pra isso.
Colocou o nome Call of Duty na caixinha, fez campanha de marketing durante o jogo de futebol americano ou a luta de MMA e pronto: milhões de pessoas felizes com seu mais novo shooter embaixo do braço. A indústria de games ainda é muito dirigida ao hype, muito suscetível ao melhor marketing, que nem sempre é sinônimo de melhor jogo, ou melhor tratamento do desenvolvedor.
Observem que não tenho nada contra Black Ops ou qualquer outro jogo vender muito e dar lucro: pelo contrário, parabéns pelo trabalho bem feito na hora da promoção e venda do game. Mas, sinceramente, gostaria que o descaso e a ingerência dos publishers para com os desenvolvedores, as pessoas responsáveis pelo sucesso dos jogos em primeiro lugar, fosse punido de alguma forma no mercado de varejo.
Na indústria do cinema, um desentendimento público entre produtores e o diretor ou ator principal pode afundar completamente um filme, principalmente se resultar em algum dos figurões sendo afastado do projeto. Mas nos games, infelizmente, os desenvolvedores ainda estão longe de ser tão high-profile ao ponto de causar o mesmo impacto. Na nossa indústria, as estrelas são as IPs, e não os artistas por trás delas.
Will Wright deixou a Maxis; The Sims 3 continua vendendo milhões e milhões. Em 2004, namorados, maridos e esposas de funcionários da EA, inspirados pelo blog anônimo EA Spouse, se organizaram e foram a público protestar contra as péssimas condições de trabalho na empresa. Apesar de ter sido o marco inicial na luta séria por melhorias para a nossa categoria profissional na EA e em toda a indústria, pouco ou nada foi sentido desse episódio em termos de vendas dos games da empresa.
E nós sabemos muito bem que a única linguagem que os publishers realmente entendem é a dos cifrões, o único calo que realmente dói é o do bolso. Por isso, como desenvolvedores, temos que nos organizar e lutar pelo reconhecimento da nossa contribuição. Ora, muitas empresas de games nem mesmo possuem uma política coerente para colocar os nomes dos profissionais nos créditos dos jogos!
Enquanto isso, Call of Duty vai continuar vendendo milhões, mesmo que a Infinity Ward seja silenciosamente esvaziada, mesmo que a franquia seja transferida para outros estúdios sem tradição no gênero, como Treyarch e Sledgehammer.
Enquanto isso, publishers continuarão premiando com descaso os desenvolvedores que lhes doaram seu talento e suas centenas de horas-extras não-pagas. Enquanto isso, a Digital Chocolate e a Mythic vão continuar se negando a dar o devido crédito aos profissionais que participaram de seus games. Enquanto isso, a Activision vai continuar recompensando os visionários que lhe geraram bilhões de dólares em receita com demissões sumárias e processos judiciais.



Rogerio
November 17, 2010 at 16:01
Infelizmente é uma realidade quase desconhecida. Ate eu que acompanho [razoavelmente] noticias nao sabia da dispensa das mentes por tras de call, o que mostra que MUITA gente que realmente deixaria de comprar o jogo se soubesse que o genio de tras dele saiu, nao compraria. Na industria do cinema a saida de um diretor é algo que ESTOURA na midia de modo que as vezes uma franquia ja “sucesso” antes de sair acaba afundando porque o diretor saiu, mas existe uma divulgaçao, as pessoas entendem que a saida de um Diretor pode acabar com o que foi tão genial no filme anterior, ja nos games não, eles nao entendem que um produtor, um diretor, as vezes ate um programador chave pode desmonorar um game. isso é algo que nao atinge as massas, enquanto um comercial no intervalo do superbowl, atinge MUITA GENTE. XD
Luiz Alvarez
November 18, 2010 at 13:35
Ótimo texto! É irônico ver a Actvision desrespeitando quem desenvolve seus jogos de maneira semelhante a que a Atari fazia.
Esse número absurdo de vendas é um problema das sequências, se o jogo anterior fez sucesso é muito fácil o seguinte fazer mais ainda, mesmo sendo feito por outra equipe e/ou não tendo o mesmo padrão de qualidade. Felizmente está ficando mais comum a IP ser de quem desenvolve ou invés de ser do publisher, o que vai evitar esse número infinito de sequências. O próximo passo vai ser dar uma visibilidade maior pra quem desenvolve, tanto das empresas quanto das pessoas. Só não sei bem como isso pode ser feito.