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E se os impostos caíssem?

author: Colaboracao date: September 12, 2010 tags: , ,

Lá estava eu, em mais uma acalorada discussão sobre o mercado nacional de entretenimento eletrônico.

De um lado eu, uma pessoa que se sente altamente prejudicada pela nossa carga tributária, de outro um amigo meu, dizendo que acha que as coisas tem que ficar do jeito que estão – se não tem como comprar, não tenha o produto. Os dois se degladiando na busca de imprimir o seu próprio ponto de vista. De fato, não chegamos a lugar nenhum.

Mas certas coisas, infelizmente, não temos como negar. Algo impede que a indústria de games seja massificada no Brasil.

Se pararmos para pensar na acessibilidade dos jogos retail no Brasil, veremos um quadro que podemos no mínimo chamar de desafiador. Temos preços altos em relação aos padrões da indústria. O principal culpado no nosso caso é o imposto cobrado sobre esses produtos.

Agora pare e pense:

E se esse panorama mudasse? E se o governo finalmente se tocasse a abaixasse os impostos em games?

A despeito de todo otimismo que isso geraria, eu vejo que o mercado brasileiro, infelizmente ainda não está pronto para uma mudança desse porte. De onde sairia a mão de obra qualificada para suprir as vagas que seriam criadas, tanto no comércio quanto no desenvolvimento? Como as empresas lidariam com a localização dos jogos? Como as desenvolvedoras brasileiras se sairiam diante da nova concorrência, num mercado que, mesmo sem ela, é tão difícil de se viver disso?

O mercado tem apresentado um crescimento interessante nos últimos anos. Mas ainda é pequeno para o tamanho e o potencial que nosso mercado pode ter.

Uma redução brusca nos impostos cobrados nos consoles e jogos poderia minar esse crescimento, inserindo muita gente sem o devido preparo no mercado, gerando muitos efeitos negativos no médio e longo prazo. Temos que crescer, mas também temos que pensar que, de nada vale o crescimento quando não há um plano para manter o controle da situação.

Não podemos nos contagiar por uma onda de otimismo, quando na verdade, ainda há muito trabalho a ser feito e muitos passos a serem dados. A Atari, com o crash de 1984, já provou por A+B que sem preparo, não se pode esperar um futuro próspero.

Precisamos de incentivo do governo em relação aos tributos? Claro, mas não adianta nada incentivar um mercado que não se prepara para um eventual boom de demanda.

[Rodolfo Brito tem 23 anos, trabalha no varejo formal de games a 3; irá compartilhar com vocês suas experiências e expectativas quanto ao mercado nacional de games. Seus posts sempre serão referentes ao mercado, visto de um dos extremos do ciclo: o comércio.]

cateogories: Colaboração, Mercado

15 Responses to E se os impostos caíssem?

  1. Gilliard Lopes

    September 12, 2010 at 14:49

    Rodolfo, sinceramente não consigo concordar muito com o teus pontos. Não entendo como o súbito aumento da base instalada de videogames no Brasil poderia prejudicar a indústria nacional. Acho que, ao contrário, vai gerar demanda e oportunidades de crescimento, empregos e fomentar a capacitação. Foi assim em muitos países na década de 80.

    Quanto à crise da Atari em 84, até onde sei ela não foi causada por falta de mão-de-obra capacitada, mas sim pelas estratégias de negócio que visavam colocar QUALQUER jogo no mercado, o mais rápido possível, sem nenhum tipo de controle de qualidade.

    Recomendo o livro a seguir como ótima referência sobre o nascimento e crescimento do mercado e da indústria de games no Japão e nos Estados Unidos, e sobre o crash de 84 também:

    SHEFF, David. "Game Over: Press Start to Continue". Cyberactive Media Group, 1999.

  2. Rodolfo Brito

    September 12, 2010 at 19:07

    @Gilliard

    Então Giliiard, sei que você num contava muito com essa possibildade, mas eu tenho esse livro. Já li algumas vezes inclusive. E nele, há um exemplo claro de como o despreparo pode ser prejudicial a indústria. Quebrá-la como um todo já não é mais possível, mas minar o interesse do consumidor pelo produto localizado, sim.

    O que eu quero dizer é que, apesar de todos os benefícios que uma redução brusca nos impostos trariam, essa mesma redução brusca, seria uma porta de entrada para oportunistas que, com um pouquinho de dinheiro fariam fortuna em cima da demanda alta, oferecendo produtos fora dos padrões internacionais.

    Uma vez que esses "empresários", "os nêgo de business da 25 de março" entrassem na parada, não sairiam mais, e estabeleceriam um padrão brasileiro nos serviços de distribuição.

    Quem quiser fazer um serviço sério, perderá grana, afinal, tem um custo maior.

    No fim, quem perde somos nós.

    Se hoje, já temos muitos oportunistas no varejo de jogos de pc, que tem incentivos tributários, imagina nos consoles que é onde está a demanda de verdade.

    Mais acessibilidade é bom, mas se isso não for algo gradual, as coisas podem acabar fora de controle.

  3. Gilliard Lopes

    September 12, 2010 at 21:35

    Oi Rodolfo, não entendi por que você achou que eu "num contava muito com essa possibildade". Na verdade, imaginava que você poderia ter lido o Game Over, ou pelo menos deveria, pois esse livro conta uma boa parte da história de uma empresa que nós dois admiramos muito: a Nintendo. Deixei a referência não só para você, mas para todos os leitores do Double Jump que talvez não conheçam.

    Ainda não entendi qual é o tal "problema", qual é a "coisa" que pode "acabar fora de controle", mas vou tentar interpretar os teus pontos, e você por favor me corrija se eu estiver errado.

    Duas palavras citadas por você talvez sejam parte desse tal "problema": localização e distribuição.

    Quanto à primeira, entendo que a qualidade possa se tornar um problema quando a quantidade de games for maior, mas você acha mesmo necessário que se localize todos os games? Nas eras 8 e 16 bits, quando tínhamos representação oficial das plataformas no Brasil, poucos games eram localizados, e os jogadores "se viravam". Hoje, muita gente já joga os consoles de última geração no Brasil; eles só não utilizam os meios legais pra isso por causa dos preços absurdos. E a falta de localização não me parece impedi-los.

    Quanto à distribuição, também não sei qual é o grande problema. Com a abertura do mercado, mais pontos de varejo se interessarão em vender games, sejam eles grandes redes de conveniência, pequenas lojas especializadas, ou até mesmo o Zé da Esquina. Talvez isso faça com que a maioria dos vendedores não saiba orientar os consumidores por não entenderem de games. Mas, sinceramente, qual gamer hoje em dia realmente precisa do vendedor para ajudá-lo a escolher o game que quer levar pra casa? Fora isso, não vejo qual outro problema pode haver.

    Abaixo a xenofobia! Já faz tempo que essa barreira artificial dos impostos devia ter caído. Mais brasileiros jogando = melhor pra todo mundo. Até agora não encontrei argumentos que possam provar o contrário.

  4. Rodolfo Brito

    September 12, 2010 at 22:27

    Vamos lá então. O mercado brasileiro não está pronto pra ser grande. Simples assim.

    Como já disse antes, incentivo tributário seria bom, mas deveria ser gradual, pra dar tempo de o mercado digerir esse novo panorama e dar o próximo passo.

    Nunca teremos uma indústria local forte sem que se deixe ela crescer pelas próprias pernas.

    O mercado do México foi crescendo aos poucos e hoje é sólido. O do Brasil também pode ser, mas se o ritmo dos incentivos e do crescimento não fôr devidamente dosado, o mercado vai ser obrigado a absorver um sem número de pessoas despreparadas.

    Não digo apenas na área do varejo, mas também do desenvolvimento. Quantas empresas no Brasil tem capacidade de produzir um FreeKScape? Poucas. Imagina quando o mercado crescer e, consequentemente houver mais demanda por jogos 100% nacionais.

    O crescimento forçado da demanda pode resultar em falhas na consistência do nosso mercado como um todo.

  5. Gilliard Lopes

    September 12, 2010 at 22:37

    Agora entendo melhor o teu ponto. Mas ainda não vejo de onde vai sair essa maior "demanda por jogos 100% nacionais". Não consigo enxergar os gamers clamando por jogos brasileiros. Não com a quantidade massiva de jogos que já existem, de todas as origens.

    Entretenimento me parece uma mídia universal a essa altura. Não me lembro de ter havido uma "demanda por filmes 100% nacionais" por parte do público consumidor do cinema; pelo contrário, partiu DA INDÚSTRIA a vontade de produzir filmes brasileiros, a iniciativa de conseguir subsídio governamental.

    Não entendo como o mesmo não possa acontecer com os games. Na verdade, torço pra que aconteça. Cresce o mercado, e por consequência, cresce a indústria. Difícil está sendo a indústria crescer sem um mercado local forte.

  6. Flavio Meibach

    September 12, 2010 at 23:03

    Também estou com dificuldade de entender o problema. Rodolfo, ainda não entendi quem você quer dizer que sairia prejudicado com a redução dos impostos e aumento da demanda. De quem você está realmente falando quando cita oportunistas? Quando você fala de um plano, qual seria sua sugestão? Está tudo muito vago no seu ponto de vista, por isso acho que não estamos conseguindo entender qual você considera ser o melhor caminho para essa abertura mais "controlada".

    A princípio eu estava entendendo que você temia pela concorrência que os desenvolvedores nacionais iriam enfrentar. Nesse ponto posso afirmar que uma redução de impostos teria um reflexo muito próximo de nulo no setor.

    Quem depende do mercado interno não baseia seu sucesso na possibilidade de gerar conteúdo mais barato que o importado, e sim na necessidade de conteúdo específico para esse público. Quem depende do mercado externo já lida com essa concorrência, independente do que o governo decida fazer com os impostos.

    Depois, me pareceu que sua preocupação era com o mercado de varejo e fiquei boiando ainda mais. Não consigo imaginar o mecanismo que faria impostos altos defenderem o mercado formal dos pirateiros e contrabandistas.

    Vendedores despreparados seríam o problema então? Não concordo com o Gilliard nesse ponto. É verdade que qualquer gamer que se preze hoje em dia está informado o suficiente para não precisar da ajuda de um vendedor treinado do outro lado do balcão. Mas o mercado consumidor não é formado só por games, e é bem fácil imaginar um pai que não vai comprar outro jogo pro seu filho no próximo natal depois de ver a cara de decepção do filho ao ganhar o recomendadíssimo jogo de tarô no aniversário da semana passada.

    Mesmo assim considero esse problema muito pequeno para defender os impostos. Com o dinheiro que essa demanda vai gerar para o mercado formal fica fácil treinar vendedores, ainda mais se levarmos em conta que os "gamers que se prezam" daríam ótimos candidatos.

    Falando em defender impostos, sei que não é exatamente isso que você está fazendo. Nesse ponto seu post está suficientemente claro, você só considera mais saudável que essa abertura seja gradual e planejada. O que não está claro são os motivos para você defender esse ponto de vista. Já do meu ponto de vista considero que chega de impostos imediatamente. Chega de se iludir com a falsa segurança que eles prometem. Pra falar verdade, chega de medo da concorrência. Quem precisa da proteção do governo pra competir não tem coragem para esse jogo.

  7. Rodolfo Brito

    September 13, 2010 at 08:18

    @Gilliard

    Quanto aos filmes nacionais, a lei de incentivo a cultura que viabilizou cresimento da indústria do cinema brasileiro. SE o governo resolver mudar esse panorama e incentivar o mercado de games, acha mesmo que ele não vão querer fazer algo parecido? Abrir linhas de crédito com juros irrisórios para o cara que queira produzir um jogo 100% nacional, inclusive no tema do jogo?

    O governo já provou que só incentiva o que dá retorno de mídia.

    Lógico que isso é apenas uma possibilidade remota, então deixa pra lá que tá ficando mais uma viajem na maionese minha do que um assunto contrutivo. hehe

    Agora @Fábio e aquem mais interessar.

    Eu julgo como oportunistas empresas como a Sony Brasil. Hoje em dia eles até deram uma melhorada nos serviços, mas ainda estão devendo em relação a Microsoft.

    Sabe porque? Quando a Sony Brasil lançou seus primeiros títulos de PS3 no Brasil, lançou produtos de qualidade altamente discutível. Vou te falar uma coisa, eu tinha vergonha de oferecer os produtos deles em detrimento aos importados. Caixas que não fechavam mais depois de abertas, papel dos encartes e a própria impressão de baixíssima qualidade eram os cartões de visita desses produtos. E o preço? Nunca inferior ao da Microsoft ou da Warner que, desde sempre, troxe produtos com o mínimo de localização (capa e manuais) e ainda mais barato que qualquer jogo importado. Isso não é oportunismo? Isso não é lesar o consumidor?

    Lembrando que, quando eu digo consumidor, digo o pai ou a mãe ou até um cara comum que curte ir na loja comprar os jogos, e não o cara que faz de tudo para importar o jogo. Esse consumidor existe sim, ele não é uma lenda como muitas pessoas acham.

    Acabar com impostos seria muito bom, até porque o consumo aumentaria, mas a qualidade do serviço prestado pela varejo cairia muito, mais por culpa das distribuidoras mesmo (de onde viriam a maior parte dos "oportunistas" que vocês pediram pra eu explicar quem eram).

    Lembrando que o dinheiro você até recupera rápido, mas a boa imagem demora um tempo incalculável. Podemos crescer com uma imagem boa, e de um jeito (odeio essa palavra) sustentável (sic). Mas também podemos passar a carroça na frente dos cavalos e fazer tudo nas coxas.

  8. Flavio Meibach

    September 13, 2010 at 10:46

    Agora que você deu nome aos bois acho que ficou bem menos vago o o ponto de vista do seu post. Na sua opinião os oportunistas se concentrariam mais entre as grandes distribuidoras, alguns dos quais, segundo você, já vêm fazendo um trabalho porco.

    Mas qual a ligação entre imposto alto e serviço porco? Qual oportunidade uma quebra imediata de impostos vai gerar para os oportunistas? Me parece mais natural exatamente o contrário. Com impostos altos essas distribuidoras ainda têm uma desculpa para diminuir a qualidade de seus produtos. Elas podem justificar que para se manterem competitivas elas têm que economizar na manufatura e localização desses. Mas sem esses impostos acaba a desculpa (eu realmente considero isso mera desculpa), e o consumidor pode escolher com seu bolso o que considera um serviço/produto de qualidade, forçando os oportunistas a aumentarem a qualidade de seus produtos para se manterem competitivos.

    Espero que você entenda que não estou pegando no seu pé, e acho muitos dos seus pontos válidos quando vistos separadamente. Só não consigo ver qual seria a vantagem entre quebrar esse falso protecionismo governamental imediatamente ou gradualmente. Não consigo ver como os oportunistas tirariam mais vantagem da primeira estratégia do que da outra. Oportunista é quem se aproveita de uma situação, e o único que estou vendo com clareza aqui é o governo.

  9. Glauber

    September 13, 2010 at 11:02

    Acredito que se basear em um caso em particular para presumir que esses tipos de coisa – incompetência na abertura de mercado e mão-de-obra desqualificada – seja um tanto quanto equivocado, quem sabe até subestimação.

  10. Rodolfo Brito

    September 13, 2010 at 11:41

    @Gilliard

    Gilliard, dá uma passada aqui na loja (o gerente aqui joga Fifa até os olhos saltarem das órbitas, vai te perguntar um monte de coisa da série) que eu vou te mostrar como é um jogo de PC retail no Brasil. Lembrando de uma coisa, os jogos de PC já são isentos de impostos.

    Em alguns raros casos, os jogos vem com um manual impresso, e quando vem, é um papel sulfite com meia dúzia de informações e em preto e branco.

    Suporte técnico é inexistente e por aí vai…

    SE já fazem isso no mercado de PCs, porque não fariam com consoles? Lembrando que, no caso da lei de incentivo da informática, ela exige que façam uma localização da caixa e tal, mesmo assim, não são raros os casos de produtos que, apesar de estarem em conformidade com a lei, não me deixariam satisfeito como consumidor. Aliás, eu também sou um consumidor e, depois de conhecer como é a caixa de um jogo americano, vai ser difícil eu engolir pagar por um produto que, não tem os mesmos itens do americano na caixa, como os manuais e propagandas.

    Maaaaaaaaaaaaaaas, caso isso não aconteça com o mercado de jogos de consoles, aí não haveria pontos negativos.

  11. Rodolfo Brito

    September 13, 2010 at 11:43

    @Glauber

    Você sabe muito bem como é difícil contratar na sua área, por falta de mão de obra qualificada. Não devia achar que estou subestimando a mão de obra nacional. Estaria subestimando se dissesse quem ninguém é capaz de aprender, mas aí já assunto pra outra conversa.

  12. Glauber

    September 13, 2010 at 13:26

    Rodolfo, é isso que você disse, implicitamente. Que a "os caras" vão chegar, a gente não vai conseguir atender a uma demanda de produção de jogos e vamos estagnar. Sua HIPÓTESE não considera a HIPÓTESE de que haja aprendizado DEPOIS de "os caras" terem chegado, junto com conhecimento. Isso é que é colocar a carroça na frente.

    Além do fato, como já dito antes, de tudo isso – demanda por produção nacional – ser um pressuposto, já apontado como vago e tirado de lugar algum.

  13. Rodolfo Brito

    September 13, 2010 at 18:24

    tem moderação nos comentários Glauber? Certeza que tinham mais a umas horas…

  14. Glauber

    September 13, 2010 at 18:32

    Tem. Tiramos dois, não acrescentavam nada na discussão e tinham potencial de estragá-la :/

    Coisa de tipo uma linha de frase só pra provocar.

  15. Rodolfo Brito

    September 13, 2010 at 19:42

    eu vi, mas deixei quieto. Nem valia a pena responder. Se quiser apagar esse e o meu último também, fique a vontade.

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