‘Bora fazer um jogo? ‘Bora!

author: Gilliard Lopes date: August 10, 2010 tags: , , ,

Salvador, outubro de 2003. Cerca de 150 pessoas assistem ao fim da palestra Inteligência Artificial em Jogos 3D de Ação – Teoria e Prática, no WJogos 2003 – workshop de desenvolvimento de jogos que deu origem ao nosso SBGames. No final, uns 10 deles se aproximam do palestrante pra conversar e fazer contato. Enquanto aguardam sua vez, dois rapazes começam uma conversa paralela:

- Oi, eu sou o Antônio!

- Muito prazer, meu nome é Pablo. ‘Bora fazer um jogo?

- ‘Bora!

Fast-forward para San Francisco, março de 2008. Aquele mesmo palestrante está agora na platéia do Game Developers Choice Awards na GDC. Crayon Physics Deluxe acabara de ganhar o Independent Games Festival. Yahtzee conta suas piadas em alta velocidade no telão (algo sobre Mario virando abelhinha). Rafael Kuhnen, ao seu lado, se gaba por ter adivinhado todos os vencedores da noite até então. Mas o palestrante não está prestando atenção.

Atrás dele, uma conversa mais interessante está acontecendo. Dois rapazes com sotaque californiano discutem avidamente. Algo como “nosso game poderia ter ganhado”. O outro responde, “Bosta de boi! Tivemos que cortar metade das fases”. “É, mas você também não implementou os efeitos sonoros”. “E a sua abertura feita às pressas ficou um lixo”.

Instintivamente, o palestrante lembra de Antônio e Pablo, e se pergunta se o plano deles de “fazer um jogo” teria tido um desfecho tão conflituoso e decepcionante quanto o dos americanos ali atrás.

* * *

Qual gamer nunca quis fazer um jogo? Quantos de nós não sonhamos em construir uma carreira respirando jogos 24h por dia? A principal característica do aspirante a desenvolvedor de games é a empolgação. Não é preciso mais do que um “Bora? Bora!” pra que mil idéias surjam na cabeça, pra que a imaginação voe alto, e de repente descobrimos o que queremos fazer da vida.

Infelizmente, perseguir uma carreira na área de games, principalmente partindo do Brasil, é um puta choque de realidade esperando pra acontecer. Primeiro, falta informação: a maioria dos gamers não sabe muito bem o que é um jogo por dentro, quais são os tipos de profissões envolvidas, e como se preparar pra elas. Esse assunto inclusive foi tratado no Ep. 04 do DoubleJumpers Podcast. Depois, falta formação: o candidato a game dev precisa correr atrás de cursos, faculdades ou auto-instrução de boa qualidade pra ter chance no mercado. No fim, faltam empregos: a indústria nacional ainda é pequena e muito concentrada em alguns poucos pólos geográficos de empresas.

* * *

De programador pra programador, as dicas que posso dar para quem está interessado em começar uma carreira na área de games são as seguintes:

  • Se o teu objetivo é trabalhar com games top de linha (os chamados AAA) para os consoles da última geração, você tem que se preparar para, mais cedo ou mais tarde, sair do Brasil e tentar a sorte na indústria da América do Norte e Europa. Para isso, você precisa no mínimo do diploma da faculdade, inglês afiado e alguns projetos pessoais para mostrar.
  • Computação Gráfica é uma das especializações mais procuradas pelos empregadores. Um excelente C++ é indispensável, e OpenGL é um bom começo, mas hoje em dia DirectX é muito mais utilizado nas empresas.
  • Aconselho também você experimentar programação para Unreal 3.0 e Microsoft XNA, que são tecnologias bem quentes atualmente. É bem fácil encontrar bons livros sobre esses assuntos na Amazon.
  • Um projeto pessoal conta muito na hora das entrevistas com empresas de fora. Não faz mal que seja apenas um demo, seja curto ou não tenha a arte acabada; eles entendem que é muito trabalhoso produzir um game completo e polido como projeto pessoal. Mas você precisa mostrar que o projeto é concreto e rendeu resultados demonstráveis. O ideal é que seja rodável em PC (com XNA fica fácil) ou que pelo menos você tenha muitos screenshots e vídeos pra mostrar.
  • É importante também você ter bastante exemplos de código C++ de sua autoria; obviamente não precisam ser games completos, mas quaisquer aplicações e ferramentas de computação gráfica, inteligência artificial ou simulação física servem, de preferência rodáveis ou com screenshots e vídeos. É comum durante a entrevista que os programadores peçam pra enviar pedaços de código C++ escrito por você para eles avaliarem o seu estilo de programação.
  • O mercado casual e portátil é bem mais fácil no Brasil. As empresas em geral estão concentradas em SP, Curitiba, Floripa e Porto Alegre, dê uma olhada nos membros da AbraGames. Seria interessante para você começar em uma empresa nacional para ganhar um pouco de experiência e ter chances melhores de arrumar um emprego fora.
  • No final das contas, você precisa convencer as empresas de fora a arcarem com a burocracia e o custo de emissão de um visto de trabalho para brasileiros, despesas com a sua viagem, etc. Você precisa mostrar pra eles porquê vale a pena investir em você ao invés de contratarem os recém-formados das faculdades locais próximas. Ou seja, o seu portifólio de projetos pessoais tem que ser diferenciado, experiência nas empresas nacionais ajuda muito, e durante as entrevistas você tem que se sair muito bem.

É um desafio, mas posso afirmar que compensa.

cateogories: Desenvolvimento, Game Design, Produção

14 Responses to ‘Bora fazer um jogo? ‘Bora!

  1. Phellipe Lacerda

    August 10, 2010 at 09:57

    É triste, mas é a realidade. Fazer jogos não é fácil. Dedicação e persistência em levar seu projeto em diante é alguns dos segredos de sucesso de um bom desenvolvedor.

  2. Martin

    August 10, 2010 at 10:07

    Post brilhante do Gilliard. Ele passou por muitas coisas e tem todo background pra falar o que quiser deste tema.

    Para nós, que ainda estamos començando, acho que cabe muita determinação. Determinação para trilhar um path que é bem difícil no Brasil, e mais difícil ainda de se ir para fora.

    Mas acredito que é desta forma mesmo. O Gilliard é um ícone que temos que utilizar para ganhar conhecimento. O fato dele ter conseguido ir pra fora mostra o quanto nós temos potencial.

    Quem sabe no futuro ele não volta e ensina a gente a programar ein?

  3. Artemis

    August 10, 2010 at 10:29

    Acho que a principal coisa que temos que pensar é que essa "Síndrome do Bora-Bora" que acontece muito no Brasil é fruto ainda da idéia de que se fazer um jogo é uma coisa simples que qualquer um faz… fazer um jogo até deve ser, agora fazer um jogo bom é outra história.

    É necessário muito estudo, pesquisa e esforço pra crescer nessa indústria, que apesar de desafiadora e difícil, realmente compensa :)!

  4. Rafael

    August 10, 2010 at 11:39

    Po.. acertar todos os vencedores do GDC awards nao eh pouca coisa nao! Seu vi***!

  5. Keyo

    August 10, 2010 at 11:47

    Argh, ler esse post me deixou depressivo. Meu portfolio tá muito fraco. Preciso trabalhar mais em cima dos meus projetos pessoais.

  6. Martin

    August 10, 2010 at 12:06

    Keyo, coloca esse portfólio online! Deixa as pessoas olharem e comentarem.

    As vezes está muito mais forte do que você pensa =)

  7. Gilliard Lopes

    August 10, 2010 at 12:15

    @Martin Pára com isso, rapaz! Que ícone nada, eu tive sim o privilégio de trabalhar com games desde cedo, com muita gente boa que me ensinou muita coisa. Quando a oportunidade surgiu, eu agarrei, e espero sim voltar ao Brasil, não pra ensinar ninguém, mas pra contar algumas histórias e compartilhar experiências. O que vocês estão fazendo por aí também tem que ser muito admirado, fazer sucesso nessa área no Brasil é talvez o desafio maior de todos.

  8. Gilliard Lopes

    August 10, 2010 at 12:17

    @Rafael Hauheuhauehae tá vendo! ÍCONE mesmo é o Rafa, que acerta todos os vencedores de todos os prêmios de games… Pena que não funcione pra mega-sena…

    BTW to ansioso pra ver o Rafael (Kuhnen, personagem da história do post) contribuindo com as experiências dele aqui no DJ em breve!

  9. Gilliard Lopes

    August 10, 2010 at 12:23

    @Keyo Ouça o Martin, rapaz! TER um portfolio já te diferencia de muita gente, é meio caminho andado. Minha intenção não era fazer ninguém ficar depressivo e desistir, mas cerrar os dentes e ir à luta! Tive que ser realista, claro; é nossa obrigação como membros da comunidade DJ.

  10. Leandro

    August 11, 2010 at 05:49

    Ótimo post, como a maioria já disse é muito inspirador, no início é um tapa na cara, mas do tipo que acorda e mostra que mais do que simplesmente querer, é preciso dedicar horas e horas em que muitas vezes estaríamos com amigos ou é claro jogando, em projetos pessoais, estudos e pesquisa. Parabéns pelo blog e os ótimos posts, desde que encontrei, virou ponto obrigatório de vísita e feeds. :)

  11. Pedro H. Fernandes

    August 11, 2010 at 14:55

    Muito esclarecedor mesmo! Esse post mostra ainda mais a importância do DoubleJump para nós, aspirantes dessa indústria.

    Só tenho a agradecer a essa moçada pela quantidade de informações preciosas e decisivas! Espero encontrar um dia com vocês nos corredores dos estúdios e poder agradecer pessoalmente.

  12. Mauricio Cunha

    August 14, 2010 at 17:26

    Com certeza empolgação é o que leva muitos a se interessar no tema, mas é preciso persistência (teimosia cai melhor).

    Estou há 3 anos desenvolvendo meu jogo nas horas vagas (trabalho/estudo e filhos…), realmente fazer tudo sozinho não é algo simples, e mesmo com uma equipe, manter algo por tanto tempo é complexo.

    Bom texto !

  13. Evanfire

    September 9, 2010 at 15:33

    Nossa! Eu ta nessa palestra e lembro dessa cena! kkk WJogos foi o primeiro evento de games com foco acadêmico que fui (depois fui nuns 2 SBGames, um CDGRio, e organizei um workshop de games e tecnologia). Na epoca cursava design gráfico, na minha cidade natal Aracaju-SE, no final do curso entrei numa incubadora com um projeto pré-incubado para desenvolver jogos de celular e internet. Não vingou. Fiz pós em comunicação digital e acabei trabalhando com ead. Hj estou morando em SP e (continuo) estudando (dessa vez na Saga) para entrar de cabeça no mercado de games.

  14. Gilliard Lopes

    September 9, 2010 at 16:25

    @Evan Hahahaha que maneiro encontrar alguém que lembra dessa época do WJogos… Você estava no CDGRio em qual ano? Dei uma palestra lá em março de 2006 chamada "10 Conflitos no Desenvolvimento de Games", foi um evento bem legal.

    Abraço pra você, continue na luta que você chega lá! E continue frequentando o nosso DJ também hehehe.

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